A equipe da campanha #MulheresRurais, mulheres com direitos divulga a lista de vencedoras do Concurso de vozes, imagens, histórias e experiências das mulheres rurais.  Foram mais de 100 inscritas nas categorias de Relatos de Vida e Experiências de Organizações. Mulheres rurais, negras, quilombolas, indígenas, de todos os lugares do país, contando histórias emocionantes que retratam a luta das brasileiras que vivem no campo.

“O concurso nos proporcionou conhecer melhor a realidade da mulher rural brasileira. A riqueza dos relatos de vida, da beleza que vimos em cada depoimento, as imagens sensíveis ilustram uma realidade bonita e forte”, destaca a coordenadora da campanha no Brasil, Geise Mascarenhas.

Os primeiros lugares das categorias do concurso serão premiados na 27ª Reunião Especializada da Agricultura Familiar do Mercosul (REAF Mercosul), que será realizada em dezembro no Brasil. Na oportunidade, as vencedoras compartilharão suas experiências e desafios com instâncias do governo e organizações da sociedade civil ligadas à agricultura familiar.

Já os primeiros lugares das modalidades vídeo, áudio, texto e imagem receberão, cada uma, um tablet. Não tivemos candidatas para a categoria ilustração. Todos os materiais recebidos serão reunidos em uma publicação a ser lançada em dezembro, no  encerramento da campanha 2017 #MulheresRurais, mulheres com direitos. A equipe da campanha #MulheresRurais, mulheres com direitos entrará em contato com as ganhadoras em breve.

 

Conheça as ganhadoras:

1º lugar

Categoria RELATO DE VIDA

GRACIVAN DA SILVA PEREIRA ( MARIA QUARQUÉ)

Local: Xinguara/PA

Tema: Redução das Desigualdades

Gracivan da Silva Santos Pereira, conhecida como Kennya Silva, usa a poesia para narrar a sua história de luta e empoderamento. Mãe aos 16 anos, trocou os estudos pelo trabalho rural.  Um belo dia, ao ouvir um programa da Rádio Amazônia, encorajou-se e decidiu enviar um dos seus poemas para a jornalista Mara Regia que leu o seu texto, ao vivo, em um dos programas.  Muitas mulheres procuraram Kennya após a leitura do poema e, então, ela resolveu voltar para a escola. Terminou o ensino fundamental, médio, ganhou uma bolsa de estudos por meio do programa PROUNI e cursou Letras. Hoje, aos 40 anos, possui pós-graduação em língua portuguesa e literatura e, também, é integrante da Academia Xinguarense de Letras.  Mesmo com toda a sua trajetória, nunca largou o campo.

1º lugar

Categoria EXPERIÊNCIAS DE ORGANIZAÇÕES

MOVIMENTO DE AGROFLORESTORES DE INCLUSÃO SINTRÓPICA

Local: Goiânia/ GO

Tema: A transformação da realidade pela agroflorestal

O MAIS tem a missão de disseminar a agricultura sitntrópica através do financiamento coletivo para a formação de pequenos produtores rurais, agricultores familiares ou comunidades tradicionais, indicados seguindo critérios sócio econômicos, geográficos e de vínculo interpessoal com os “padrinhos”, integrantes do movimento, que acompanham o desenvolvimento dos contemplados até que eles se consolidem como multiplicadores da Sintropia em suas regiões.

VENCEDORAS POR MODALIDADE

1º lugar – Vídeo

COOPERATIVA UNIVERDE – ALZENI DA SILVA FAUSTO

Local: Nova Iguaçu/RJ

Tema: Fomento das Comunidades Sustentáveis

Dona Alzeni, mulher do campo, moradora de uma região pobre de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, enfrentou o desafio da sobrevivência tirando da terra o seu sustento e o de sua família.  Alzeni organizou e motivou as mulheres de sua comunidade para trabalharem juntas na produção de alimentos, utilizando uma faixa de dutos de petróleo até então ociosa.  Alzeni exerceu liderança, assumiu protagonismo, ensinou e ajudou a empoderar diversas outras mulheres como produtoras rurais. O passo seguinte foi a criação da Cooperativa de Agricultura Familiar Univerde, sendo dona Alzeni a presidente. A cooperativa produz hortaliças e ervas medicinais, cerca de 30 culturas diferentes: alface, rúcula, almeirão, couve…. Atualmente são 18 famílias que integram a cooperativa que tem a oportunidade de viver através de um negócio familiar, além de ter como seu próprio consumo produtos de alta qualidade.

1º lugar – Áudio

VÂNIA APARECIDA SANTOS DA SILVA

Local: Santa Bárbara/ MG

Tema: Empoderamento Feminino

Agricultora familiar, negra, educadora. Com 40 anos, sempre lutou contra o preconceito e a violência. Estudou, fez faculdade de pedagogia, teologia e sonha em fazer mestrado. Sempre atuando com a juventude rural e mostrando que é possível sim viver bem na área rural.  É diretora da instituição onde estudou e vende seus produtos da agricultura familiar para as escolas municipais.

1º lugar – Foto

CREUZA KRAHÔ

Mora no Sul do Maranhão e é da Aldeia Galheiro. Tem 47 anos. É mestranda em Sustentabilidade Cultural, do Centro de Desenvolvimento Sustentável, da Universidade de Brasília. Ela estuda, mas nunca saiu da aldeia. Tenta levar conhecimento para outras mulheres que são responsáveis pela alimentação do povo Krahô.

Local: Goiatins/TO

Tema: Povos e Comunidades Tradicionais

1º lugar – Texto

ARMEZINDA DA SILVA FIRMINO

Possui um grupo de mulheres chamado Raízes da Terra. Atua com agroecologia com mais 20 mulheres no assentamento onde mora e, após concluir o segundo grau, ensina outras agricultoras familiares a ler e escrever.

Local: Espera Feliz/MG

Tema: Acesso à Terra

“A vida não é para ser escravizada ou para ser engolida, é para ser vivida com dignidade”.

Sou de uma família de 13 filhos. Quando era criança, a gente sempre morou em terreno de patrão e chegava a mudar duas vezes por ano, porque os patrões não cumpriam o trato que faziam. Casei com 16 anos e minha vida não foi diferente; continuamos mudando. Em 2007, nós viemos para o assentamento onde moramos hoje. Fizemos a compra pelo crédito fundiário, para ser paga por 17 anos.

Eu tinha uma vontade imensa de voltar para escola, porque precisei parar meus estudos para trabalhar na roça e ajudar a cuidar dos meus irmãos. Foi um desafio muito grande estudar à noite, porque minha família foi contra. Perseverei cinco anos na escola, voltei para a quinta-série junto com os adolescentes e, quando começou a Escola de Jovens e Adultos, terminei o segundo grau. Depois disso, consegui levar duas filhas que também não tinham estudado e hoje, uma vez por semana, ensino outras agricultoras a ler e a escrever. Uma delas, toda quinta-feira, anda uma hora a pé para frequentar as aulas. As agricultoras já conhecem o alfabeto, escrevem o nome e conseguem fazer algumas operações bancárias sozinhas; são conquistas grandes para quem sentia vergonha por não ter estudado.

Começar a participar das reuniões da comunidade e do sindicato não foi fácil, eu estava acostumada a ficar só dentro de casa. No princípio a gente acha que é coisa que não faz parte da nossa vida, que está perdendo tempo, mas comecei a ver que fazia parte do meu crescimento como pessoa. A partir do trabalho de mobilização de mulheres feito pelo CTA – Centro de Tecnologias Alternativas, foi despertado o desejo de a gente se organizar, então formamos um grupo produtivo com 20 mulheres da nossa comunidade, chamado ‘Raízes da Terra’ e, desde então, comecei a me envolver mais.

Hoje acho tão fundamental participar das atividades que é até difícil de explicar. A gente tinha na cabeça que ser mulher é ser menos que o sexo masculino, é não ter poder, não ter vez, não ter voz. Eu mesma não valorizava o que fazia, achava que era um trabalho menos importante. Queria trabalhar, mas não tinha um planejamento do que fazer na terra, não anotava nada, não tinha noção de quantas coisas tinha em volta de casa, as frutas, as plantas medicinais. Então participar fez parte do planejamento não só do trabalho, mas da vida também.

As mulheres desempenham um papel muito importante e muito difícil de fazer a agroecologia acontecer, travam uma luta muito grande. Em quase toda casa que a gente chega tem uma guardiã secando e guardando semente para plantar e trocar, mas muitas companheiras da Zona da Mata ainda pensam que a renda vem só do café e da roça e não da casa, sendo que a maior parte do que a família consome vem do próprio quintal e é a mulher que está cobrindo esse sustento.

Hoje percebo que não temos diferenças, que devemos lutar por uma paridade de direitos entre homens e mulheres. Participo mais da igreja, sou ministra da Palavra, coordenadora do dízimo, catequista, além de ser missionária da minha comunidade. Nos movimentos e na igreja eu pratico o que é para o bem-estar, porque a vida não é para ser escravizada ou para ser engolida, é para ser vivida com dignidade.”